sábado, 30 de setembro de 2017

Rigaud Nogueira

Uma Inesperada Herança

e meu encontro com Rigaud. 


    Do antigo Reino de Portugal nos idos de 1932 uma herança nos fazia imaginar uma bela história de vida, mas que nunca havia sido devidamente contada em seus detalhes e muito menos esclarecida.
    Rigaud Nogueira foi um personagem cujo nome se ouvia no seio da família, no entanto quase nada se dizia sobre ele, a não ser que havia deixado essa tal herança para seus muitos familiares no Brasil e, em particular, aos da Bahia.
    Resolvi então ir à sua procura e para melhor nos encontrarmos com essa pessoa notável, dividi este assunto em 3 partes distintas.
                                              Parte 1 - Primeiras Notícias sobre Rigaud
                                              Parte 2 - O Estudante e Suas Obras
                                              Parte 3 - Encontro com Rigaud e seu Pai
     Assim sendo, vamos até Portugal ao encontro desse nosso parente distante.



     Sobre Rigaud Nogueira se sabia, tão somente, que havia existido e que ao falecer em Portugal deixara uma herança em dinheiro, bastante razoável, para ser dividida entre seus familiares brasileiros até a terceira geração. Outros detalhes sobre ele simplesmente desconheciam.
     De concreto, diziam se tratar de um dos "lentes, ou professor, da Universidade de Coimbra, solteirão e muito rico". Coube a Leopoldo Nogueira, um dos irmãos de meu avô Luiz, a responsabilidade por compartilhar com 51 dos herdeiros, a parcela de Rs 626$900 (seiscentos e vinte e seis mil e novecentos réis) em moeda da época e que cabia a cada um deles. Tal divisão foi cuidadosamente documentada por Leopoldo em livros-caixa, pois o mesmo tinha como profissão a de agente financeiro no Rio de Janeiro.

Uma das páginas do livro-caixa de Leopoldo.

       Visto isso e apenas com essas poucas informações começamos nossa busca e pesquisa na tentativa de estabelecer um encontro com Rigaud.

Parte 1
Primeiras Notícias sobre Rigaud.
     acréscimo de um patronímico francês ao nome de família, levaria a deduções outras, não fosse a preciosa informação que nos foi passada em janeiro de 2000, por Rubem Nogueira, um dos sobrinhos de Leopoldo. Segundo ele, nos idos de 1925 esteve de passagem pela Bahia, a bordo de um navio vindo de Lisboa e chefiando uma delegação de estudantes universitários o professor português Rigaud Nogueira. Este havia sido procurado à bordo por um de seus primos, irmão de Leopoldo, Francisco Nogueira Sobrinho. Tínhamos a partir desse fato uma primeira pista a seguir, tomando como referência jornais da época daquele ano.

1928 - A caravana portuguesa que viaja para o Brasil.
     Foi quando ao consultar uma publicação digitalizada do jornal "A Noite" do Rio de Janeiro, quando a edição de 6 de setembro de 1928 dá notícia de que uma caravana de viajantes estava sendo organizada na cidade do Porto, com o objetivo de levar estudantes portugueses e brasileiros, acompanhados por professores e autoridades, em viagem cultural ao Brasil. Então, em um dos assuntos intitulado de "A Excursão do Bagé", lá estava ele, o professor Rigaud Nogueira.


  • "9º - Quaisquer detalhes sobre a viagem serão fornecidos no Consulado Geral do Brasil, no Lloyd Brasileiro e pelos Srs. Henrique Ferreira Alegria, Dr. José Alvares de Souza Soares, Ramiro Silva Ribeiro e professor Rigaud Nogueira.
  • 10º - O navio escalará na ida em Lisboa, Recife, São Salvador (Bahia) e Rio de Janeiro."
     Ali estava a confirmação da tal viagem cujo navio, o paquete Bagé, faria escala em Salvador, mencionando a presença do ilustre acompanhante Rigaud Nogueira, um dos responsáveis pela organização da viagem. Em outro jornal do Rio de Janeiro em 27 de setembro de 1928 dá conta de que o navio fez paradas para reabastecimento, no dia anterior, em Recife e Salvador antes de seguir direto para o Rio. Informa que entre outros passageiros o grupo estava acompanhado pelo professor da Universidade do Porto (e não de Coimbra como até então se imaginava), o engenheiro Antonio Rigaud Nogueira.


Prédio da Universidade do Porto - Antiga Academia Polytéchinica
     
     Mesmo havendo aportado na Baía de Todos os Santos em um dia de chuva intermitente, como menciona o jornal, além do encontro de Rigaud com seu primo Francisco Sobrinho, aconteceram várias homenagens prestadas pela grande colônia portuguesa na Bahia. Naquele dia 26 de setembro uma calorosa recepção foi organizada no Gabinete Português de Leitura situado na Praça da Piedade na Cidade do Salvador, onde em breve discurso o professor Rigaud agradeceu a acolhida dos luso-baianos aos visitantes.


Ao lado da Igreja de São Pedro na Praça da Piedade
o belo prédio do Gabinete Português de Leitura

     O mesmo artigo que menciona a chegada a Bahia, descreve a tradicional festa ocorrida dois dias antes a bordo do Bagé, quando o navio finalmente passa ao largo de Fernando de Noronha. Naquele momento Antonio Rigaud revela a todos que estava muito feliz pela próxima chegada à Pátria da qual estava ausente há 19 anos. Com essa declaração, para nós, deixava de ser "um parente português", mas brasileiro e alguém que estava, de alguma forma, bastante ligado à nossa família Nogueira do Brasil.
    O fato de ser brasileiro é reforçado quando da sua participação no concurso nacional, lá mesmo em Portugal, para a execução da bandeira nacional portuguesa em 1910, ao ser proclamada e instaurada a República naquele País. Entre outras propostas a sua com seu nome incompleto foi relacionada como sendo do "arquiteto A. Rigaud Nogueira". Portanto além de engenheiro era arquiteto.

Bandeira de Portugal proposta por A. Rigaud Nogueira em 1910.

    Observando seu trabalho, sem nenhuma dificuldade, se verifica a semelhança de elementos que correspondem à nossa bandeira nacional, certamente tão proposital que analistas desconhecedores de sua naturalidade comentaram no julgamento que teria sido "influenciada pelo grande fluxo de pessoas entre os dois países e o fato de que o Brasil também havia se tornado uma República poucos anos antes." De fato desconheciam, assim como nós, que Rigaud era brasileiro.
     Assim como na Bahia, a chegada dessa caravana ao Rio de Janeiro foi alvo de homenagens e das mais variadas recepções tendo Rigaud se destacado em todas elas e se tornado verdadeiro porta-voz dos visitantes. O jornal "O Paiz" por fim nos revela mais uma característica de nosso personagem.


     Diz claramente esse artigo: "O excursionista Rigaud Nogueira é engenheiro civil e arquiteto brasileiro. Ausente do Brasil há longos anos, ocupa o cargo de professor contratado (Na Universidade do Porto). Esse nosso distinto patrício, que nasceu na Bahia, tem publicações de verdadeiro mérito."
    Aí está. Não apenas brasileiro, engenheiro civil, arquiteto e professor, mas pormenor não menos importante, agora o sabemos baiano. Porém ainda não sabíamos qual seria sua relação familiar com os Nogueira da Bahia, aqueles que foram beneficiados com a tal herança. Quem foram seus pais?
     A derradeira homenagem aos componentes dessa caravana, um concorrido almoço de despedida no luxuoso Copacabana Palace Hotel, foi oferecido pelo diretor geral do Departamento Nacional de Ensino. Em lugar de honra, ao lado do Consul de Portugal e do reitor da Universidade do Rio de Janeiro lá estava o professor Rigaud Nogueira.

O Copacabana Palace do Rio de Janeiro em 1928.

     No mesmo jornal, em outro tópico uma das mais importantes revelações ficara para o final da visita. Na coluna "Vida Social" no tópico intitulado de "Viajantes", para mais uma surpresa encontramos nessa edição de 31 de outubro de 1928, o seguinte comunicado:

"Partiu ontem para Portugal, a bordo do "Cantuária Guimarães", acompanhado de sua esposa,
o Dr. Antonio Rigaud Nogueira, professor da Faculdade de Engenharia
da Universidade do Porto, que veio ao Rio acompanhando a caravana luso-brasileira."

     Portanto, em poucos tópicos referentes à viagem de Rigaud ao Brasil, muito do que se desconhecia sobre ele, aos poucos iam sendo reveladas. Sim, fora ele um professor, mas da Universidade do Porto. Não era português, mas brasileiro e baiano. Também não era "solteirão", como acreditavam aqueles que receberam parcelas da herança que deixara, mas casado e com sua mulher regressava para a cidade do Porto de onde viera, para não mais regressar ao Brasil.
     Foi na cidade do Porto, de acordo com o "registo de testamento com que faleceu Antonio Rigaud Nogueira", onde consta a data de 12 de janeiro de 1932,  quando ocorre sua morte e o fato de que deixara testamento. Portanto ele faleceu quatro anos depois de sua última visita ao Brasil.


     Assim encerramos a primeira parte de nossa busca.

Parte 2
O Estudante e suas Obras.

     De acordo com o que imaginamos, nosso professor havia estudado e se formado na Academia Polytéchnica do Porto e em um dos anuários daquela instituição que logramos localizar, lá estava ele entre os matriculados no ano letivo de 1880-1881.


     Deduzimos que na época da matrícula constasse com pouco mais de dezoito anos, comum aos jovens que haviam concluído os ensinos elementares e de liceu, para somente assim ingressar em uma das universidades portuguesas. Nesse mesmo anuário finalmente ficamos sabendo de quem era filho, além de confirmada sua naturalidade. Eis o que consta em um tópico reservado às origens dos alunos daquela Academia e às cadeiras nas quais está matriculado.


     Finalmente estabelecemos o parentesco do jovem acadêmico com os demais membros da família Nogueira. Seu pai era Francisco Rodrigues Nogueira, irmão de Antonio Rodrigues Nogueira que entre nós ficou conhecido como "O Figura". Francisco estivera juntamente como seu irmão no ano de 1848 na Bahia onde foi proprietário de uma casa comercial. No entanto, por não ter constituído família como o Figura, regressou em definitivo para a Cidade do Porto em 1864 posteriormente ao falecimento de João, único irmão de ambos, que lá ficara cuidando dos negócios dos pais já falecidos.
     Como estudante Rigaud desde cedo apresentara sua tendência maior para a Arquitetura, porém também fez curso de Engenharia Civil e de Diretor de Obras, o que lhe dava referências para projetar, construir e administrar seus próprios projetos. 

Um dos estudos desenvolvido por Rigaud na Academia do Porto em 1888.

     Sua formatura e licenciamento como Engenheiro Civil se deu em 2 de agosto de 1889, conforme consta no Anuário da Polytéchinica do Porto daquele ano letivo de 1888 a 1889.


     Após ter se formado, o jovem engenheiro passa a colaborar com o pai na administração de seu principal negócio, que como capitalista havia se dedicado à construir residências para locação. Foi em um requerimento para uma das obras de seu pai, com data de dois anos após sua formatura e cujo projeto foi elaborado por ele, que encontramos sua assinatura.


     Esse documento nos revela que eram moradores à Avenida da Boa Vista nº 911 e que o terreno onde seria executada a obra seria vizinho à residência. Eram três casas para locação construídas em um só bloco e se encontram ainda em perfeito estado de conservação, como pode ser constatado nas imagens abaixo coletadas recentemente.

À esquerda a residência de Francisco e à direita as três casas geminadas.

Essas características ornamentais da fachada, em particular o complemento
superior das platibandas e janelas são observados em outros projetos de Rigaud.

     Em outro requerimento, datado de 12 de outubro de 1931, sendo portanto posterior ao regresso de Rigaud de sua última visita ao Brasil, quando solicita licença para obra em imóvel de sua propriedade, ficamos sabendo que residia na época e certamente com sua mulher, à Avenida da Boa Vista, nº 1065. Essa avenida é a mais importante do centro moderno do Porto e fica na parte alta daquela cidade.


O simpático sobrado da Avenida da Boa Vista 1065.

     A residência de Rigaud, assim como mais duas casas na mesma quadra, foram projetadas de modo que podemos observar as mesmas características nos detalhes arquitetônicos de suas fachadas. Outras duas, na Rua de Santa Catarina nº 1432 também são semelhantes, o que nos faz crer que nessas obras o mesmo projeto foi utilizado por ele em endereços diferentes.

 Avenida da Boavista nº 1083 - Casas construídas em março de 1908.

Rua de Santa Catarina nº 1432
Ligeiras alterações revelam que se trata do mesmo projeto acima.
Atualmente na casa da direita, com entrada para veículos, funciona o Hotel Costa do Sol.

     O arquiteto Antonio Rigaud Nogueira não projetou apenas as casas para locação para seu pai. Alguns dos mais bonitos palacetes lhe foram encomendados e dentre eles o da Rua Bonjardim nº 1254 tem sido, inclusive, alvo do instituto de preservação do patrimônio do Porto, por sua importância  no contexto histórico da arquitetura portuguesa e daquela cidade.

Plantas do projeto para o palacete da Rua Bonjardim.

O palacete é totalmente revestido com cerâmica nessa coloração da foto recente.

Detalhe decorativo elaborado em gesso para o teto da torrinha do palacete.

Palacete da Rua Álvares Cabral nº 312, elaborado em 10 de agosto de 1902.

Rua de Santa Catarina nº 1316, outro palacete projetado por Rigaud Nogueira.

Outros dois blocos de residência para aluguel pertencente a seu pai,
construídos na Rua de Álvares Cabral nºs 259 e 263.

     Todos esses imóveis somente foram localizados graças aos registros que são mantidos no Arquivo Municipal da Cidade do Porto. As imagens dos mesmos foram realizadas mediante um breve "passeio virtual" por meio do google street view com imagens atualizadas em 2016.


Parte 3
Encontro com Rigaud e seu Pai.

      Nosso derradeiro encontro com Rigaud e por consequência com seu pai Francisco, se dá, curiosamente, por meio dos testamentos de ambos. Localizados no mesmo instituto da cidade do Porto, são detalhes preciosos que de uma vez por todas nos coloca diante de dois personagens da família, que até então eram pouco ou nada conhecidos por todos nós.

Pequeno trecho introdutório do testamento de Francisco,
escrito pelo próprio, parcialmente transcrito abaixo.

Testamento - Eu Francisco Rodrigues Nogueira, solteiro e morador na Avenida da Boavista, 95, d’esta cidade do Porto, tenho resolvido fazer o meu testamento pela forma seguinte: Sou cristão, natural da freguesia de S. Martinho de Cedofeia d’esta cidade, filho legítimo de Antonio Rodrigues Nogueira e de D. Antonia Luisa, ambos já falecidos e morro na profunda crença da regeneração da humanidade pela república, fé política professada por mim desde a infância...
Instituo e nomeio por meus universais herdeiros, com obrigação de cumprir as minhas últimas vontades, a meus filhos Francisco Rigaud Nogueira e Antonio Rigaud Nogueira, os quais perfilhei por escritura de dez de fevereiro de mil oitocentos e setenta e seis...
 E d’esta forma tenho concluído este meu testamento, que escrevi pelo meu próprio punho e assino. Porto, 9 de março de 1896.” 

     Em poucas linhas, das quais as mais importantes aí estão, preciosos detalhes nos são revelados por ele. Francisco se dizia solteiro embora vivesse com a mãe de seus dois filhos, aqui também nominados. Além disso, nos revela quem eram seus pais e onde nascera. No endereço mencionado, defronte do Parque da Cidade do Porto, atualmente existe uma bela residência em linhas modernas.
  Seu falecimento, de acordo com registro de abertura de seu testamento que está no Arquivo Municipal do Porto, se deu aos 24 de janeiro de 1902, aos 82 anos de idade, pois sabemos que nasceu aos 13 de fevereiro de 1820.


    Já o testamento elaborado por Antonio vai corroborar o que se sabia dele, mas acrescenta detalhes que o tornam sobremaneira importante nesse nosso encontro. Do mesmo modo foi elaborado de próprio punho e foi nesse documento que nos deu a conhecer o nome de sua mãe, ignorado no testamento feito anos antes por seu pai, assim como o de sua mulher.

Trecho da introdução ao testamento de Antonio Rigaud Nogueira.

“TESTAMENTO - Eu, Antonio Rigaud Nogueira, cidadão brasileiro, casado, maior, engenheiro civil, morador na Avenida da Boavista nº 1065, d’esta Cidade do Porto, faço o meu testamento livre e espontaneamente pela maneira seguinte: Sou natural da cidade da Bahia, República dos Estados Unidos do Brasil, onde nasci a 5 de fevereiro de 1861, filho de Francisco Rodrigues Nogueira e de Anna Eliza Rigaud, ambos já falecidos, e estou casado civilmente com Maria Emília da Silva Rigaud Nogueira, desde 20 de abril de 1910, com escritura antenupcial lavrada nas notas do notário Eduardo Artur Maia Mendes no dia 16 do mesmo ano. Declaro também que da mesma senhora e anteriormente ao nosso casamento, tive um filho de nome Fernando da Silva Rigaud Nogueira, nascido a 2 de fevereiro de 1892, perfilhado por mim a 7 de maio de 1902 nas notas...
 Quero que meu enterro seja feito civilmente, sendo o meu caixão coberto com a bandeira brasileira e transportado até o cemitério de Agromonte à capela privativa de família de meu pai Francisco Rodrigues Nogueira, onde ficará depositado em caixão de chumbo na gaveta que já tem o meu nome. Declaro mais não ter religião alguma, ser positivista e republicano radicalmente socialista. Se à hora de minha morte, por fraqueza física, espiritual e moral, declarar outra coisa, quero que se cumpra à risca o meu testamento em tudo particularmente no que diz respeito ao meu enterro, que será civil, sem a mínima manifestação religiosa.  
Finalmente nomeio meus testamenteiros em Portugal em primeiro lugar a meu filho Fernando da Silva Rigaud Nogueira, em segundo lugar a minha mulher Maria Emilia da Silva Rigaud Nogueira e em terceiro lugar a meu amigo Sr. Severino Guimarães, e no Brazil, em primeiro lugar a meu primo Dr. Fructuoso Pinto Rigaud, em segundo lugar a seu irmão Eduardo Julio Rigaud e em terceiro lugar ao Dr. José Martins de Souza Mendes, residente no Rio de Janeiro, capital da República dos Estados Unidos do Brazil, aos quais pela ordem em que ficam nomeados peço façam cumprir este meu testamento, que escrevi pelo meu próprio punho e vou assinar e rubricar.
Porto, 24 de julho de 1930.”



     Mais uma vez, recorrendo à instituição que detém a guarda de tantos documentos no Porto, ficamos diante de mais um registro e desta feita o do testamento de Rigaud. Nesse documento consta como tendo falecido no ano de 1932. Provavelmente de causas naturais, contando apenas 71 anos de idade. 



   Embora nos dois testamentos que acabamos de conhecer, colhendo ali as informações que contribuíram para o encontro com Rigaud, ficou evidente que em nenhum deles há a mínima menção de que houvera qualquer benefício a ser direcionado para os parentes brasileiros. Francisco, por exemplo, em suas próprias palavras deixa para a "prima D. Maria Ermelinda da Silva Chiappe usufruto vitalício de trinta ações do Banco de Lisboa e Açores", além de deixar como lembrança ao amigo José João Teixeira de Moraes, o próprio "alfinete de peito com brilhante." Os filhos, por sua vez, assumem por direito os negócios do pai e por algum tempo dão continuidade a eles.
     Do mesmo modo nada que justifique a tal herança inesperada recebida por nossos bisavós, avós e tios, naquele ano de 1933, é mencionado no testamento de Antonio Rigaud Nogueira, afinal tanto sua mulher quanto seu filho teriam direito à totalidade de seu espólio. Por isso, se especula que não tendo herdeiros vivos quando de seu falecimento, ou parente próximo em Portugal, coube a Antonio Rodrigues Nogueira Jr., o "Dota", um dos irmãos de meu avô Luiz Nogueira, sendo primo em segundo grau de Rigaud, quando de viagem ao Porto havia tomado conhecimento de que havia essa herança para ser reclamada. Assim teria foi feito no retorno ao Brasil e coube, como já vimos, a seu irmão Leopoldo dar prosseguimento ao processo jurídico de habilitação para que eles e demais primos recebessem cada um sua parte no espólio de Rigaud Nogueira.

Conclusão

     Foi assim que se deu meu encontro com Rigaud e que agora compartilho com todos aqueles que um dia se perguntaram sobre quem seria esse misterioso benfeitor de alguns antigos membros de nossa família. Se não logramos localizar qualquer documento que confirmassem algum desejo resultante daquele benefício, as informações coletadas nos remeteram às mais remotas origens dos Nogueira desde a Cidade do Porto, na freguesia de Cedofeita, tendo como um dos pontos mais marcantes, ficar sabendo que foi na Igreja de São Martinho o templo católico onde os mais importantes atos de suas vidas aconteceu. 

Igreja de São Martinho na freguesia de Cedofeita

Interior da Igreja de São Martinho mostrando o altar mór e a pia batismal.
Nessa igreja se casaram os pais de Francisco e nela ele foi batizado.

Nota importante:
Para mais informações atualizadas sobre a origem dos Nogueira na Bahia, acesse a primeira publicação feita neste blog em dezembro de 2010 intitulada como "I-Os Nogueira de Serrinha-Bahia", sobre o primeiros jovem português que veio para o Brasil. Foi atualizada em 30 de setembro de 2017.
Para facilitar sua visita, acesse o link: http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/2010/12/os-nogueira-de-serrinha-bahia.html




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cândida Marçal - Sengés

Cândida Marçal em Sengés

        Sengés   pequeno município posicionado quase na divisa do estado do Paraná com o estado de São Paulo, está situado no norte paranaense, também conhecido como “norte pioneiro”, distando 274 quilômetros de Curitiba. Repousa às margens do rio Jaguaricatú que atravessa o centro da cidade, para seguir seu curso em direção de outros afluentes que vão desaguar no rio Paranapanema. Também atravessava a cidade, praticamente contando-a ao meio, a estrada de ferro que unia os estados do Paraná e São Paulo. Justamente em virtude desse importante empreendimento, a localidade onde foi construída tem seu nome em homenagem ao engenheiro Gastão Sengés, responsável pela construção daquela ferrovia, criminosamente desativada por conta da política de um governo irracional que prioriza o transporte rodoviário, com todas suas infelizes consequências.

 Localização de Sengés no mapa do Paraná.

Embora não tenha sido Sengés a região de origem do casal Cândida Marçal e seu marido Salvador Subtil de Queiróz, foi aí onde nasceram e criaram a maioria de seus filhos.
Quando os Marçal ali chegaram, Sengés ainda era um pequeno vilarejo, elevado a município quando de seu desmembramento em 1º de março de 1934 do município de Jaguariaíva, com sede mais ao sul na direção da capital paranaense. Tem em Itararé, ao norte, já no território paulista, a cidade mais próxima cerca de 30 quilômetros. Possui algumas atrações de caráter turísticos tais como as grutas da Barreira, um grande “canyon”, cascatas e trilhas ecológicas que fazem parte da chamada “rota dos tropeiros”.


Os tropeiros conduzindo montarias pelo Paraná.

A ocupação dessa região, segundo dados obtidos através de site oficial do governo paranaense, se deu aproximadamente no ano de 1883, com o estímulo colonizador dado aos brasileiros pelo agonizante regime imperial, que para o sul do País procurou atrair colonos, com a notícia de riquezas naturais ali existentes aliadas ao seu solo fértil. Nessa época o Brasil já começava a se preparar inevitavelmente para seus primeiros passos de reformas radicais em todo o seu sistema político.



Pinheirais paranaenses em foto de Marc Ferrez – 1890.

O regime escravagista ainda estava vigente, embora já atingido mortalmente em setembro de 1871 com a “Lei do Ventre Livre” que culminaria com a abolição da escravatura em 13 de maio de 1888 quando passa a vigorar a “Lei Áurea”.  Por essa razão a ocupação do território, baseada na fertilidade do solo e demais riquezas naturais, passa a ser estimulado. A migração de colonos de regiões próximas, principalmente do estado de São Paulo, para trabalhar essas terras, traz também para Sengés algumas famílias de origem estrangeira. São alguns poucos italianos, poloneses e até árabes, dentre outros, que assim como em todo o Paraná para essas terras são atraídos, formam um caldo cultural bastante heterogêneo. A grande floresta de araucárias, os pinheiros-do-paraná, com sua extração resultando um rápido retorno de investimento, necessitava de numerosa mão de obra livre para sua derrubada e por essa razão teria sido a primeira alavanca para o crescimento do lugar, surgindo as primeiras fábricas de transformação dessa madeira, utilizadas na construção de casas e mobiliário simples, para atender inicialmente a demanda dos moradores da área e posteriormente a comercialização nos centros maiores.

 Extração de madeira nas florestas de araucárias.

Carregamento de madeira retiradas das florestas de pinheiros em Sengés.

Por volta de 1908, nova leva de migrantes é atraída por esse trabalho e pela instalação da ferrovia, que ali constrói uma estação para embarque de passageiros e da madeira, o que vem dar nova dimensão de desenvolvimento ao povoado que se formava.
Sengés anualmente vive seu maior e mais festivo dia em 20 de janeiro, dia do seu padroeiro São Sebastião. Essa festa também já foi um marco de separação e paradoxalmente de união, entre as duas principais correntes religiosas do local os católicos e os protestantes, cada um com seu templo em um dos lados do rio, resultando anos mais tarde num curioso episódio envolvendo Cândida Marçal, curioso relato que faremos mais adiante.
Antiga estação de Sengés que foi desativada.

Cândida e Salvador, ao chegar nesse remoto vilarejo de nome afrancesado (os seus habitantes invariavelmente pronunciam “sãngéis”), encontraram o solo fértil para se fixarem e viver. Nos idos de 1910, eram apenas mais um modesto grupo familiar trabalhando em sua pequena propriedade na zona rural.

 Cândida e Salvador com cinco dos filhos.
Atrás o mais velho Osório. Da esq. p/dir. – Sebastião, Hugo, Licurgo e Oales.
 
Salvador Subtil de Queiroz e sua montaria predileta.

Dos pais de ambos, quase nada se sabe, apenas que a família de meu avô Salvador Subtil de Queiroz, também conhecido como Salvador “Firico”, tem sua origem no pequeno município de Capão Bonito no estado de São Paulo, onde ele veio a nascer em 2 de novembro de 1881. Era o segundo filho de Zeferino Alves dos Santos e de Francisca Romana de Paula que se casaram lá mesmo, em Capão Bonito, aos 03 de novembro de 1878. Há que se observar aqui que o sobrenome dos pais de Salvador não carregam o patronímico familiar “de Queiroz”, entretanto, ao encontrarmos o registro de nascimento em 18 de novembro de 1850, de seu pai Zeferino, constatamos que sua avó Leonor Eufrásia de Queiroz, casada com Benedito Gomes da Silva, teria sido homenageada com a inclusão desse sobrenome no neto.
Já os pais de minha avó Cândida Pereira Marçal, teriam vindo da cidade de Itaberá, em São Paulo, para Itararé onde ela, filha de Joaquim Paulo Pereira Marçal e de Maria Rosa Marçal viria a nascer a 20 de janeiro de 1885. Se dizia também na família, talvez de modo folclórico, que seus pais teriam origem espanhola, sendo até possível que originalmente tivessem feito parte de um grupo familiar descendentes de ciganos que haviam se fixado em Itaberá. Dela, essa origem parece ser aceita pelo fato de que, além de ser muito religiosa, Cândida lia e escrevia corretamente, inclusive seus missais em latim, livretos religiosos em tempos que as missas eram totalmente rezadas nesse idioma. Tinha ainda uma habilidade natural para a música. Sabia tocar violão, porém destacava-se mais na sanfona ou acordeona. Também era conhecedora de rezas curativas complementadas com infusões da medicina natural, fortificantes e outros remédios caseiros, produzidos com ervas as mais diversas, algumas das quais ela mesma plantava em pequena horta doméstica. Vale lembrar que naqueles tempos, em lugares de quase nenhum outro recurso, essas habilidades eram extremamente úteis na educação e nos cuidados com a prole.
Foi em Itararé que Cândida e Salvador vieram a se conhecer e aos 18 de abril de 1903 se casaram na Igreja Matriz daquela cidade. Nessa mesma igreja é batizada Esmênia, a primeira dentre os filhos do casal, nascida em 03 de março de 1904.
Somente após o nascimento do segundo filho, Osório em 30 de abril de 1906, teria o casal se mudado para Sengés onde passam a residir. Essa mudança do casal se dá, muito provavelmente, em virtude das oportunidades de trabalho e aquisição de pequena porção de terras que naqueles tempos eram oferecidas na região vizinha, onde lavradores da região eram atraídas pela extração de madeira e recentes plantações de café.
O casal teve ao todo dez filhos, a saber:

SALVADOR (02/11/1881 – 06/09/1942)
CÂNDIDA (20/01/1885 – 08/12/1958)

 1.      Esmênia (03/03/1904) – Teria falecido aos 17 anos, ainda em Itararé,
       onde permanecera morando com a tia Jacyntha para estudar.
 2.      Osório Subtil Marçal (30/04/1906) - oficial barbeiro em Ponta Grossa,
       casado com Alice Araújo Marçal.
 3.  Pedrina Subtil Marçal (06/08/1909 às 05:00h), foi casada com Antonio Correa Lima.
 4.  Licurgo Subtil Marçal (ou Lyculgo – 21/07/1914), casado com Iracema Carvalho.
 5.  Sebastião Subtil Marçal (09/03/1915 às 12:00h ),  casado com Albertina Vicentini Marçal.
 6.  Elydia Subtil Marçal (30/03/1918) – faleceu aos 7 anos por infecção intestinal.
 7.  Públio (22/11/1919 – 18/04/1921) – vítima de tétano.
 8.  Hugo Subtil Marçal – comerciante em Londrina, casado com Iluína Pompeu Marçal.
 9.  Oales Subtil de Queiróz, casado com Cecília Mayer Borkowski de Queiróz.
10. Maria Ondina Subtil Marçal (30/07/1926 às 12:00h) casada com José Moacyr Rodrigues Nogueira (09/12/ 1921- 14/03/2002), baiano de Serrinha.



A família possuía uma pequena propriedade adquirida por Salvador, onde se dedicavam à plantação familiar de subsistência, além de uma pequena lavoura de café e algodão. Possuíam também, algumas poucas cabeças de gado leiteiro.
Além de cuidar da propriedade da família, Sengés oferecia poucas opções de trabalho, sendo que Salvador e Cândida, acompanhados de algumas filhas, trabalhavam ocasionalmente na Fazenda Morungava uma das grandes propriedades vizinhas, na época da colheita de café. 

 O casal e as filhas Esmênia e Ondina colhendo o próprio café.

Nhá Cândida, como assim era conhecida por sua vez destaca-se de imediato na crescente comunidade religiosa local, como uma das suas mais atuantes orientadoras. Segundo o que colhemos em um pequeno histórico sobre a paróquia do lugar, no ano de 1924 visitou Sengés, para dar atendimento aos paroquianos, certo Frei Ricardo. Nessa ocasião nomeou uma comissão de membros da primeira capela construída em 1917, que deviam cuidar, como leigos, do serviço religioso e também da parte financeira, com o objetivo de levantar uma capela de maiores proporções. Faziam parte desta comissão alguns dos cidadãos mais importantes da comunidade tais como os senhores Jorge B. Santos, Josino J. Moraes, Norberto Machado, Domingos Branco, Ezequias Pereira e as senhoras Augusta R. Machado e Cândida Subtil Marçal.

 

 Cândida na frente da velha capela junto ao Frei Ricardo e as “Filhas de Maria”.

Aquela Capela, construída em 1917 na parte alta da rua que mais tarde levaria o nome de Expedicionário Anélio da Luz, justa homenagem ao pracinha morto em combate durante a segunda grande guerra, foi mudada em 1934 para o local onde hoje se encontra a Igreja de Cristo Rei. Nesse mesmo ano foi colocada e abençoada a primeira pedra dos alicerces da Igreja de Sengés, pelo padre Francisco Capute.
Novamente uma comissão auxiliadora na construção do templo seria formada e ainda desta feita dentre os nomeados lá estava Cândida Marçal entre seus componentes. A construção do novo templo teve início em 7 de abril de 1934, substituindo assim a segunda capela.
Morando na cidade e mais próxima da nova igreja, cuja construção acompanhava de perto, ela também tem mais tempo para dedicar-se à sua devoção.




A nova igreja em construção no ano de 1934.

Foto de 1935 com Cândida, Salvador e a igreja em construção ao fundo.

Cândida Marçal fazia parte da congregação de “Filhas de Maria”, sendo uma das coordenadoras mais ativas desse movimento cristão, organizando grupos de crianças para as aulas de catecismo. As festas religiosas, novenas e outras atividades da paróquia, mereciam dela uma atenção especial. Sem descuidar dos cuidados com os filhos, ela estava sempre à frente de todas as atividades da Igreja, fosse durante as novenas ou nas procissões. Durante esse evento lá ia ela dirigindo os cânticos religiosos e as rezas mais importantes, prática que viria a resultar em um dos episódios mais marcantes da vida religiosa dos habitantes daquela pequena cidade.

 As aulas de catecismo com filhos e crianças do lugar.

Em ano que infelizmente não conseguimos precisar, certo dia 20 de janeiro na festa de São Sebastião o padroeiro do local, o ponto alto das novenas em louvor ao santo, como sempre era a procissão. Saindo o cortejo da Igreja, serpenteava as principais ruelas no lado católico de Sengés, indo até as proximidades da estação de trens de onde retornava, seguindo até a cabeceira da ponte sobre o rio que dividia a cidade para dar a meia volta e retornar à Igreja. Convém registrar que, embora não existisse rivalidades religiosas que perturbasse a vida de seu povo, nessas épocas festivas a cidade se dividia naturalmente em dois lados, o lado católico e o lado dito “protestante”, tendo como divisor natural o caudaloso rio Jaguaricatú, cujos limites eram definidos pela ponte, mais precisamente pela cabeceira de cada margem.
Em cada um dos lados existia o mais importante templo de cada uma das religiões, portanto, a procissão sempre retornava dessa cabeceira. Postados do outro lado enquanto o cortejo religioso se movimentava, ficavam grupos de protestantes, como que aparentando advertir que não permitiriam que a procissão passasse daquele ponto, seguindo em curso para aquele lado da cidade, mesmo sabendo que ali moravam também diversas famílias católicas.


A igreja presbiteriana no outro lado do Jaguaricatú.

Isso vinha se repetindo ano após ano, nunca ocorrendo nenhum fato que justificasse qualquer comportamento hostil, pois o interessante e paradoxal disso tudo é que, terminada a procissão, quando se iniciava a quermesse, ponto culminante da festa, verdadeiro congraçamento acontecia entre os habitantes de Sengés, inclusive com a presença dos protestantes, que postados naquela cabeceira, pareciam somente aguardar respeitosamente a conclusão dos cultos católicos para atravessar a ponte e se juntar à festança, participando ativamente da quermesse organizada na lateral da Igreja católica, sem qualquer atitude de provocação ou algazarra. Conta-se que havia até aqueles não católicos que doavam prendas para serem leiloadas do alto do coreto ao lado da igreja. Todos pareciam entender que o comércio e a vida normal da localidade dependiam desse clima pacífico e de tolerante respeito mútuo.
Mas eis que um daqueles dias festivos, Nhá Cândida Marçal surpreende a todos. A família gozava da amizade de tantos quanto os conheciam, fossem católicos ou protestantes. Ela nunca havia se preocupado com essas diferenças e num certo 20 de janeiro tudo parecia transcorrer como nos anos anteriores.
Terminada a missa, organizada a procissão, lá se foram os devotos marchando lentamente, cantando ladainhas e outras rezas, carregando aos ombros os andores com seus santos de devoção. Fizeram o percurso de sempre até a estação e retornando, no momento em que se aproximaram da ponte, de longe já avistavam os mesmos grupos do outro lado, como de costume, a aguardar o término daquelas comemorações.

Um desfile de estudantes cruzando a velha ponte do Jaguaricatu.

Chegando à cabeceira da ponte pararam, como nos anos anteriores, mas surpreendentemente dona Cândida, depois de alguns instantes parada olhando firmemente para os grupos postados adiante, ao invés de orientar o retorno para a Igreja, cantando firmemente dá início a uma inesperada marcha na direção do outro lado do rio, o “lado protestante”. Passados os primeiros momentos de susto e espanto de lado a lado, aos poucos suas “Filhas de Maria” juntaram-se a ela em coro e a seguiram, para logo depois todo o séqüito carregando o andor com a imagem do São Sebastião fazer o mesmo. Houve momentos de expectativa e apreensão. Porém, ao invés de impedir aquela marcha decidida e imprevista, os grupos de protestantes também surpreendidos com tal atitude, não esboçaram qualquer reação. Simplesmente iam abrindo alas para que passassem todos, pela primeira vez, para o outro lado da cidade, carregando bem alto seus andores, dentre os quais o do Santo homenageado que vinha altivo à frente de todos, bem junto à Nhá Cândida.
Podemos muito bem imaginar os pulos de felicidade que dava o coração corajoso daquela figura esbelta, de pele amorenada, cabelos lisos e arrumados em um pequeno coque no alto da cabeça e olhos sorridentes que se destacavam em seu bonito rosto emoldurado pelo inseparável véu que sempre utilizou nessas ocasiões.
No alto da rua a Igreja de São Sebastião e o velho coreto em 1958.

A partir de então, queremos crer que graças ao gesto espontâneo de Cândida Marçal, Sengés não se sentiu mais como uma cidade dividida, pelo menos espiritualmente, pois os moradores católicos que habitavam o outro lado do Jaguaricatú, tiveram a oportunidade de ver passar pela primeira vez diante de suas portas, os andores com as imagens dos santos de suas devoções. O elemento surpresa e a total falta de espírito de provocação deve ter sido o principal responsável pelo pacífico resultado dessa atitude que demonstra o quanto ela desejava a união de seu povo.
Ao final, a festa daquele ano ficou para sempre registrada nos anais da modesta história religiosa de Sengés, por ter sido a mais animada e alegre de todas.

Cândida e a filha Maria Ondina Marçal Nogueira
com que viveu até seus últimos dias.

Acreditamos que em virtude desse episódio inusitado, assim como pela dedicação que sempre houvera demonstrado na formação religiosa das pessoas simples de Sengés, em sua homenagem, anos mais tarde, seu nome foi lembrado para identificar uma das novas ruas nas proximidades da moderna Igreja erigida próximo ao local da antiga. A antiga foi mais um patrimônio  demolido por conta da modernização do sistema viário da cidade.

Cândida Subtil Marçal – foto de 1953.

Com a proximidade de mais uma festa do padroeiro de Sengés no próximo 20 de janeiro, não haveria data mais oportuna para dar vida e imagem àquela que também contribuiu para com a formação moral e religiosa de uma geração de sengeenses.
Foi ela quem ensinou e a meus primos o caminho que levava às mais remotas origens dos Marçal, pois o dia em que se comemora São Sebastião coincidindo com férias escolares, a viagem de trem até Sengés era o programa quase obrigatório de nossa família.  Como filho de Maria Ondina tive maravilhosos dias de férias em Sengés, refrescando-me no Jaguaricatú em companhia de alguns meninos e meninas da cidade. Paulo Ferraz e seu irmão Zezinho, eram companhia certa nos folguedos juvenis. Hospedados na pensão do Hermiliano, velho amigo da família, tínhamos o rio a correr nos fundos da casa e era tudo o que um garoto da capital podia desejar. Saudade daqueles tempos.
As Bodas de Ouro de Hermiliano e dona Maria.
Um dos mais concorridos eventos em Sengés. Dezenas de amigos prestigiaram a missa em ação de graças e a foto na frente da velha Igreja marcou a data. Acredito que alguns dos meninos que estão na frente do grupo, estarão se reconhecendo hoje ou sendo reconhecidos por filhos e netos. Uma dica: O sorridente engravatado é Paulo Ferraz, logo atrás seu irmão José, ao lado dos irmãos Safka.

Construída no mesmo local do velho templo, Esta é a atual Igreja de São Sebastião em Sengés. Sua concepção futurista lembra o estilo e arroubo arquitetônico de Niemeyer.
Sinais dos tempos, mas.....

Fotos de meu acervo particular
e outras capturadas na internet.